quinta-feira, maio 08, 2008

Hildinha, já faz dois dias

Os dias assim são meus dias que espero. Como todo final de mês, passam-se as contas, com ou sem, e não me diz que não sabe, porque sabe, estou falando de você. E por aí, eu sei também que já andou por outras casas, agora diz que vai ficar aqui. Não te deixo ficar, abro as janelas, te confundo as pernas. Te amo, te amo. Te deixo ir. E me corto, com todas as facas do cliché, o coração.

terça-feira, maio 06, 2008

Hilda

Tão recente em mim
Essa parte me foi

terça-feira, abril 15, 2008

Prognóstico do amor que não pode entrar

De repente o cliché que não me abandona, revivo tudo como sempre foi. Pela manhã, aqueles pés que encostam nos meus já foram outros pés e o casaco esquecido em casa, parei em frente a ele, já tinha sido outros casacos. A cor dos olhos, os cotovelos roídos pelo frio. O jeito de se olhar no espelho aguardando aprovação. O levantar da sobrancelha, só saber aquela. A falta de senso do ridículo, que linda falta. Quando o dorso desnudo, sou feliz para sempre. E eu, esbaforo os comentários maldosos iguais, não me queria igual. Explico mais uma vez por que, me quantifico, o crucifico, me abdico, o desclassifico.

segunda-feira, abril 14, 2008

De tudo o que dói
dói mais gostoso em mim

Sobre o passado

Não existe o estéril ou nenhuma dessas palavras que aprendi logo cedo e nunca pude experimentar. Aliás, houve aquela única vez em que me acreditei pura, assustei meus pais e disse que freira seria. Assim, aos catorze anos de idade, migrando inconstantemente entre a lascívia curiosidade sexual e a divindade lúcida transparente no mesmo corpo. Eu adolescente, era como molho quatro-queijos depois de meia-hora. Não demorava para me transformar em algo que não era a princípio e ir tomando formas irrenconhecíveis ao longo do percurso.

Freak Show

As tesouras se arrastavam pelas minhas paredes, mas não acordei com um grito meu. É este vizinho maldito, os chãos que são de taco e as portas que ele bate noite afora. Sonhava tão bem, andava de bicicleta ergométrica e a platéia me elogiava solenemente. Olha que percurso! Vai longe essa menina! Quanta seda, quanta pompa! Palmas, mais palmas! E esse vizinho, o maldito. Me acorda nos segundos entre o corte das lâminas e o majestoso. Não sei o que se passa com os homens de pescoços peludos. Aliás, temo que não seja apenas na região tão superior do seu pequeno corpo. Ele deve ter pêlo nos dedos dos pés. Desses fios longos, tão longos, que cobrem as unhas. E ele não respira direito porque sem unhas, somos uns bons soluços de gente. Talvez seja um ser solfejante, assistente de maestro de orquestra sinfônica. Um anão que conserta órgãos de igrejas. Ele não é certo. Aparece sempre de madrugada e diz que viu a minha luz acesa. Ora, eu moro no escuro. Não cansado, vem checar aos meio-dias. Sonda a minha casa e por muito pouco não escorrega por debaixo da porta e pega a minha correspondência. Não há, não há liberdade em apartamentos. Os gatos caem das janelas, as pessoas são jogadas andares abaixo e viram notícia de telejornal diário. Os anônimos, pobres de nós, ficamos com os vizinhos bizarros. Ó.
Outro dia, não tão outro assim, subia o elevador acompanhada de um careca que carregava uma boa bandeja de alumínio coberta de macarrão sem molho. Desceu dois andares abaixo do meu. Deve ter uma namorada gorda de unhas vermelhas e longas, que enfia a cara no spaghetti e mergulha o careca nos peitos imersos em molho de tomate. Goza, sorridente, com uivos de serpente sendo enforcada.
O zelador, ainda bem, possivelmente nunca lerá o meu pesar. Pois está tão entretido com seu enorme balde de maionese que enche de água suja e sabão em pó. Desce os andares esfregando os degraus, chega no térreo e sorri como quem soubesse para que nasceu.
Não contente com apenas um edifício de freak show, passo minutos olhando as paredes sujas da rua, que devem abrigar mais uns bons pares de homens-elefantes.

sexta-feira, abril 04, 2008

O bipolar

Principalmente quando me sinto assim e nem gostaria de ter que explicar, mas essa coisa de escrever quando está tudo indo muito bem não dá certo, nem um pouco certo porque veja bem, escrever é um grande sistema bipolar. Não tem nada de talento, são as dores intensas, muito maiores do que o quanto deveriam ser sentidas e as alegrias eufóricas, que passam por tão pouco por debaixo da porta ou um telefonema que chateia e te leva de volta para a montanha russa do depressivo. E você ri tanto, tanto mais do que os outros e os cachorros, até os bem feios são muito mais lindos. E você vê que algumas pessoas também são assim, mas ninguém nesse mundo divide nada além de lençóis e cheiro e às vezes uma coca-cola sem gás. E tem essas gentes, eu me impressiono, elas não sabem dizer se faz frio ou não, se o inverno é chuvoso ou como são os ventos do verão. Onde vivem que eu não vivo? Porque eu sei que quando o nariz escorre pode ser de pimenta ou de alguma coisa que foi entrando pra dentro da casa e depois pra dentro do corpo. E esse corpo, tão insatisfeito consigo, coitado do corpo, que é usado de armadura para não entrar o amor que chegará. O corpo acha que não porque é um corpo bipolar, ele não sente como os outros corpos, ele escreve as dores e, especialmente as dores, muito grato, estas lhe dão muito prazer.

quinta-feira, março 27, 2008

Meu apartamento branco

Digo sim, sim, sim. Vem pra mim, estou carente e não sei mais se perambulo por aí reclamando da ausência ou agradecendo cozinhar pelada, sem vizinho nenhum ver, dar pulos na cama, tirar os fiapos que se enfiam no edredon. O meu quarto é todo branco, o apartamento todo branco, todo control freak. Acho lindo, o branco é a intersecção de tudo, do meu sangue que ainda não vazou nele, pois eu tomo muito cuidado. Sou assim, sem pausas e respiros que sempre me dizem serem necessários para contar histórias, sejam elas verdadeiras ou não. As minhas são normalmente metade do que acontece e a outra sou eu olhando o par de suculentas ali na janela de onde não desgruda um adesivo que até o meu pai tentou(!). E o adesivo e eu somos como um casal porque já vi que ele vai estar lá todos os dias quando eu retornar. Talvez ele seja o único que me veja nua e isso é o máximo da nossa intimidade, bem como um casamento branco pra uma casa branca. A minha persiana é clara e de todo o branco e a minha mãe branca argumenta: eu disse que você não iria conseguir dormir. Agora arranja um desses tapa-olhos que a gente pega escondido em vôo de segunda. Aí nem precisaria me preocupar com quem dorme ao meu lado. Mas eu nunca faço essas coisas porque eu costumo dormir com quem eu queria mesmo ver de manhã. Eu não erro nessas porque já que decidi morar sozinha, pelo menos eu devo dormir com quem escolhi. Estava cansada de ir pra casa dos outros. Agora eu olho, o meu edredon é caro, querido. É branco, põe você também um pijama branco, vamos nós, fazer as coisas dessa cor-sem-cor, sem fluídos coloridos, por favor. Eu quero é sossego. Isso. Agora aperta aquele botãozinho e desce. Acabou. Vou lavar com cândida. Voltar pro meu adesivo-marido. Passou.

terça-feira, março 11, 2008

Arranha-céus

Meu mundo por um par de cortinas de linho. Arranhar cortinas, ponto. Arranhar poltrona, dois pontos. Napoleão, com pompa ou sem, me aconcheguei muitas vezes num pinico dourado. Muitas queridas dos arredores me desejaram, vivi das batalhas com o inanimado, mas todas, sem falta, se impressionaram. Não fui de botas, nem tive fixação por lasanha. Sou representante maior da condição libertária. Em vida vivo a última, a número sete. Por isso, disserto sem muito arrego, sinto-me velho e oportuno para qualquer desprezo. Meus donos já acionaram a idéia de ter algum outro no meu lugar e o que me resta fazer agora é aceitar um último banho frio que sempre recusei, sorrir pra ele e ele olhar pra mim, me abraçar na toalha felpuda e arranhá-la. Três pontos. Fui feliz, digo que fui e me unirei em morte a tantos gatos pardos que as pessoas contaram apaixonadas sob luares cinzas verticais de onde habitei meus anos todos. Gato morto irradiado pela vida-morte que o tomou. Arranhar céus. Infinitos pontos.

segunda-feira, março 10, 2008

Sob as sombras dos flamboyants

Perder a mulher pro corretor de imóveis me fez filósofo das causas pequenas já que além dessa e todas as outras perdas adjacentes resolvi me jogar debaixo das sombras dos flamboyants. Não tem nada de poético, não. Eu fiz por causa do sol, não dá pra suportar o calor de Fortaleza que faz em São Paulo e eu precisava me esgotar de todas as forças, me fazer coitado, me redimir com Deus, já que insistem que ele existe. João Paulo, esse mesmo que não era papa nem nada, de dois nomes me ajudou a afundar. Não gosto de prédios com nomes de mulheres como Yara e Gisele. Não me mudo pra edifícios assim. E na minha família, todo mundo é de dois nomes. Muito ruim Marco Antônio e João Paulo. O segundo, meu irmão e nem pergunte quem o primeiro é. Pois bem, escolhi a vida de mártir sem saber que as minhas unhas dos pés cresceriam e amarelariam tanto, envergariam. Isso lá é uma bela metáfora da cretina miséria de ter sido ultrapassado por um careca. Ainda bem, os males não foram tantos. Eu sou infértil. Isso é bom hoje em dia. Todo mundo se enfia na sua vida sem ao menos se importar com o que você acha. Quando eu não queria faculdade, por que eu não queria. Quando fiz pra calar, o que eu faria depois. Quando não arranjei emprego, quando arranjaria. Quando passei a namorar, quando seria o casamento. Me casei, cadê os filhos. Os filhos, cadê o futuro deles. Mas eu pulei essa parte. Eu fui pra sombra, fui me refrescar, me livrar das etapas que não me pertencem, quem sabe até eu retiro esse segundo nome ridículo. Quem sabe até ressuscito a minha avó, ela sim me daria um canto pra morar, sem me julgar, ai que lindo é amor de vovó. E no alívio, eu nem precisaria mais pensar em matar a puta que me fez tudo isso.