domingo, novembro 25, 2007

Eu gostaria muito, mas a minha monografia não deixa...

quinta-feira, outubro 18, 2007

O fino verso da gorda

O meu choro é cascata de uvas
Mas num tem gosto de vinagre
Apesar de arder
É que eu tenho a comida
E a comida me tem
Porque eu não tenho você

quarta-feira, outubro 10, 2007

Aperto Gradativo

Ele sabia muito bem como encrustrar lentamente qualquer faca em mim. Lentamente, eu disse. Implorei minhas forças para que não, porém, sequer me deu ouvidos e foi logo intrometendo a ponta aguda por entre os meus seios. A superficialidade do corte não disponibilizava entender o início de tudo. Mas estava habituado a culpar nossas brigas. Eram elas o réu dos nossos problemas. Ele, a vítima. Eu, a insensata, a que abraçava causas vazias, a que as fazia aquecidas. Eu, que somente quis atenção. E o corte aprofundou-se quando já não estávamos mais tão próximos. Era como contar história alheia sem saber ao certo como expressar a situação. Tentar adivinhar sentimento e lidar com os sumiços esporádicos que ele ocasionava.
Foi quando resolvi que não nos entendíamos. Eu, reclamando ausência, ele reclamando trabalho. Eu, falando alvoroço e ele, falando traição. O desenfreado impedia o motor dar sua partida. E todas as condições tardavam em contribuir para encrustrar mais fundo agora a tenra faca. Pois assumi, enfim, auxiliar o suicídio-homicídio. Fiz com que o prazer fosse nosso. Como já não dividíamos respiro, que dividíssemos ao menos o gozo da minha ida. Que fizéssemos uma última vez a promessa dos que nunca se vão. Porque eu nunca soube ao certo como seria. Porque eu nunca soube como as coisas seriam se não tivesse optado por realizá-las.
19/abril/2005

terça-feira, outubro 02, 2007

A lata, minha metafísica

De um tamanho desproporcional, dizia o cabeçalho. Eu não acho, no entanto, que tudo tenha tomado este rumo. Tive que ler a carta com um copo de água do lado porque a garganta amargava. Talvez as especulações sejam ditas certas, que eu não enxergue o que deva ser retocado. Na horizontal, não podia. Não podia meio-dia, não podia lajota, reverenciar o sovaco, circundar o inanimado.
E eu queria monologar a minha lata, sobre a tristeza de tê-la aqui comigo. Me jogar no sofá, espreguiçar. E contar, quero contar. Olha, eu procuro profundo. Assim, de tocar os dedos no fundo desta lata. Aí vem o cheiro de eucalipto e é como a história que não acabei de narrar. Eu não tenho nada de eucalipto, nada de desproporcional. Então devo passar a lata pra frente. Devo passar também quem me diz essas barbaridades. Então reembrulho a carta e a devolvo na caixa de correio, ando de passos contrários, rebobino meu dia.
E fim, e nem queria. Nem vou descrever mais como foi tudo isso. Volto pra cama, o cobertor em meia-volta. Estou de meias esgarceadas, quase se desnudando dos meus calcanhares. Eles ficam secos. Aí lambo os dedos e passo neles. E cheira cuspe, cheira meu cheiro. Não gosto do meu cheiro, então vou comprar um hidratante. Desses que desodorizam a vida. Tiram tudo, é bem livrar-se de uma infecção. Essas coisas da modernidade, que todo mundo limpa com algodão, são mesmo uma maravilha. Não tem que entrar em quase nada, descarta tudo, faz digestão. Aí as palavras vêm pra gente, não fazem o menor significado. Tá tudo procurado em dicionário, e eu com vergonha de mandar um beijo. Mandar um beijo é mesmo muito brega. É como acenar e não receber de volta. E quando viu, mandou pra pessoa equivocada, que olha pra trás pra ver se era pra outrem.
Outrem. Ninguém deveria usar esse termo. É feio. É tão feio como dizer te mando um beijo. E o beijo não volta, eu olho pra minha cama e as meias se foram. Não vou procurá-las. O meu corpo recebe as funções ativas de sempre mas eu decido que é aqui mesmo. Não quero me obedecer hoje. A lata me frustrou, estou no mijo desse cobertor e não tem ninguém pra pagar a conta que chegou. E vou, vou. Vou inventar sobre o que não mais sou.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Pequeno Estudo sobre o Romance Entre Atores

-Diz aí.
-Num digo.
-Isso é chantagem.
-É chantagem. Vai e conta pra todo mundo que é chantagem. Não me importo.
-Mas eu preciso saber.
-Precisa por quê?
-Por que é sobre mim. Andam falando de mim.
-Num é novidade.
-Pára, então. Tá muito ruim esse texto.
-É, eu também acho. Vamos começar outro.
-Como que começa?
-Pode ser com outro tipo de briga, uma coisa mais de bar.
-Tá. É de noite. Eu sou um batedor de carteira e você pode ser uma moça no ponto de ônibus.
-Num quero. Quero ser um bêbado no bar.
-Mas você é mulher.
-No texto eu sou homem, me sinto homem.
-Num parece.
-Tá. Então bar, esquece. Vamos fazer algo sem sexos.
-Beijo nem pensar!
-No final a gente revela, sei lá.
-As pessoas vão me achar viado.
-Eu já acho, então não faz mal.
-Chata.
-Podia ser numa biblioteca. A gente brigaria por um livro.
-Depende do livro eu brigo fácil.
-Tipo qual?
-Tipo Sartre. Tipo Camus.
-Não, não. Sartre, não. Ele já fez as brigas dele.
-Brigaria por quem?
-Eu disputaria Platão. Pra ver quem pegava primeiro.
-Pode puxar cabelo?
-Opa, puxar cabelo combina com Platão.
-Pode arrastar você pela blusa?
-Pode, pode. Acho excelente.
-Pode te unhar?
-Claro.
-Pode morder sua coxa?
-Caralho. E eu só apanho?
-Não...Imagina. Fala aí como você quer me bater.
-Hm. Posso te arranhar?
-Pode, sim.
-Posso te dar tapa na cara?
-Por favor!
-Posso também...?
-Pode, vai logo, qualquer coisa. Vou rasgar sua roupa, pode?
-Como assim?
-Como assim! Tô rasgando, pode?
-Mas vai sair do script...
-Que script? Deita aí que vou te dar uns tapas.
-Pára. Eu queria ser homem nessa história.
-Já disse que não sou viado. Vai logo, arranha minha cara.
-Você tá me assustando.
-Tô nada. Vamos logo. Me dá um.
-Num quero.
-Ah, é? Num quer mesmo?
-Mesmo.
-Então eu não vou te contar.
-Contar o quê?
-Aquilo do começo do texto.

Broncopneumonia

Eu vim correndo pra esse mundo. Corri dela, eu ainda corro dela. Tampa e destampa minha ferida sempre que pode. E agora corro do mundo, corro de tudo. Vivo com pressa. Queria parar de me ser por alguns segundos. Ser você, você que eu nunca vou saber o que é. Ou então ficar presa num cativeiro por dias, sem água. Emagrecer oito quilos. Sair de lá, pegar todo mundo pelo braço e sussurrar seus escrotos. Gritava vocês não sabem o que é isso. Eu cheguei no limite da minha dor, seus escrotos. Vocês acham que é uma grande piada mas não sabem de nada, seus escrotos, seus pernas, bando de cornos. Porque eu sou a chaleira, eu sou o ferro, eu sou o que queima, eu sou o inferno. Vocês riem, se desenrolam na minha cara, mas eu sim, eu sou uma ilha.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Amanheço

Quando já cedo, pensava sozinha de si a aurora fosse mesmo a enganadora dos dias. Amanhecia menina, dormia resina. Passava cruzando retalhos, com letras grandes espalhava vogais. As miúdas restavam para as que não são lembradas jamais. E em seguida a mão nas roupas, caídas entre meias e camisas, todas brancas, todas secas, resmungava melodias.
À tarde café na mesa, não havia quem viesse para os biscoitos. Estavam alí para impressionar. Muito obrigada, obrigada. Aplaudíam-na os fantasmas de cortinas a ventar. Dispersava alguns farelos, cortava o pão e dançava a toalha no ar. Via pássaros descer fio reto e os movia a voar.
Queria então, caísse a noite, caíssem os olhos, mas somente o ritual pra fazer adormecer: algumas luzes no corredor, alguns cômodos para escurecer. Pingava os dedos nos interruptores, espiando o telefone na sala de estar. Alcançava o último quarto, suspirava pra ir deitar.
Os pés finalmente, esfriavam-se dos chinelos. Estendia os lençóis de folhas para monopolizar seus curtos pêlos. Vedava as pálpebras, tocava a púbis no nevoeiro. Acalentava os ossos mansos, os corpos do seu corpo unindo-se em desejo. Segundos de eternidade desconfiavam seu silêncio. Era apenas um momento.
E no cume da majestosa letargia, acrescentava-se luz ao cinza. Via passos, via Borges, era o gato. Via o corredor por debaixo. Crescia em espasmos, espantava o quente bafo. Encolhia dentro do peito o mais unânime segredo: via a aurora do seu medo completar o seu enredo.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Dissidências foram aquelas. As portas se abriam, falo abriam-se então. Não havia escuta, não se entendiam, não queriam. E depois vieram a matar o pé de cidreira, achar que resolveria, um chá, uma moita, uma nova forma de vigília.

terça-feira, agosto 21, 2007

Incesto Sozinho

As coisas se acrescentam e nós não acrescentamos nada. Disse-me que nem sabe o que é isto. Que gostaria assim, de se rasgar toda. De ser deixada, de ser traída e de se ver doer. Pedi-lhe para que me contasse os seus dedos. Dos pés? De segredos. Mas não tenho dedos-segredos. Ora, todos nós temos. Como aquele de quando você chutou a preta e a pegou de volta? Isto. Peguei-a de volta porque amava. Nada, pegou porque ela não tinha para onde ir e você também não tinha para onde levá-la. Mas não é o que nos aproxima, nós seres, tão irrevolentes sem casa buscando teto alheio? Não existe a palavra irrevolentes. Claro que existe, acabei de dizê-la. Existe para você, então. Isto. Existe para mim, então.
Deita aqui um pouco. Não, tô brava. Não gosto quando inventa palavras. Tá. Vamos falar do Universo, ele existe para você? Existe para todo mundo. Mas ele existe para você como existe para mim, com toda luz que não tem luz, de traços cinzas e fios pratas? Pra mim ele é pó, a gente sopra e ele se desfaz, é caleidoscópio. Nunca tinha pensado, mas é. Vira a página, vira. Calma, gostei desta figura, ela parece com a tia Mara. O cabelo, né? O cabelo dela, enroscava enquanto dormia, dava pra tecer o incerto.
Desde sempre achei que os mesmos não podiam se gostar. E ninguém poderia saber. Ninguém vai, não se preocupe. Não vamos ter filhos, você sabe. Eu nunca quis. Também não. Fecha o livro, vem aqui, me cansa o Universo. O que mais? O quê? O que vai nos acontecer? Depende, agora que começou, eu não sei quem vai parar primeiro. Mas não queria ver? Não disse que queria se rasgar? Estou aqui pra isso. Eu tenho medo. Não tenha. Ou tenha, também. Vamos ter juntos. Você promete? Prometo. Então deita aqui. Num vai mais inventar palavras? Não, não vou. Vou inventar você, pra mim.

quarta-feira, agosto 15, 2007

Contei uma, contei duas. Poderia até contar três, mas não vem ao caso. Isto é tudo uma outra história.