Não aguardaria uma vida inteira por momentos adequados. Quando me tornei só, constatei que as pessoas sós têm muito mais a si mesmas. Naquela escolha pela solidão me vi desesperada por libertar-me dos outros, por enganar a vida com expectativas pequenas a fim de quando minhas próximas conquistas acontecessem eu pudesse me impressionar como quem tem a loteria ganha. Todo esse processo durou doze meses, até eu voltar a me sabotar e novamente achar qualquer cara interessante quando era apresentada a ele. Eram amigos de amigos, vizinhos que eu nunca havia reparado ou mesmo uns colegas de trabalho, mesmo os mais esquisitos e rejeitados. Eu realmente estava só.
Foi quando num bar estávamos somente os três. Eu, o gordo careca à minha direita e o meu futuro próximo namorado. Eu tinha ido bem até então, dois semestres toda livre de amarras e cheia de auto-controle. Mas tambem sabia que após alguns minutos e uns copos de cerveja ele se aproximaria. Já havíamos nos notado e eu não pude deixar de reparar que o seu jeans era o meu favorito. Nada muito surrado, azul escuro e contínuo, a parte detrás da barra um pouco desfeita. Perfeito. A camiseta não me agradava muito, mas a barba ruiva e lisa aparada sob medida, os cabelos negros com alguns fios manchados de sol, todos esses fatores me permitiam imaginar que chegaria até mim com o melhor dos dizeres.
Quando se apresentou, seu nome era desses que eu já planejava combinar com o meu como tantas vezes já havia feito. O sobrenome não me disse, mas faltava pouco para pensarmos nos nossos filhos e a data de casamento. Ele sorria de lado e desconcertado como quem não quer falar de si. Fazia muitas perguntas e dissimulava quando eu as retornava.
Era do que eu precisava me reabastecer, já que o amor para mim sempre foi algo muito triste e prazeroso. E se ele pudesse demonstrar nessa singela troca de palavras que era incapaz de me amar por completo, mas que me desejava por inteiro, lá estaria eu, mais uma vez nos lençóis das migalhas. E esta, sem me boicotar, era a minha verdadeira realização.
sexta-feira, novembro 21, 2008
sexta-feira, outubro 17, 2008
Garota-propaganda
Eu dou passos largos de fuga de mim mesma, já que entrei em tanta mirabolante complicação que eu sei, mais uma vez, terei que escapar. E a única coisa que me acalma é arranjar um assento no ônibus, qualquer linha, nem que seja o lugar dos velhos e grávidas. Aí o cobrador sempre me avisa o ponto, eu desço e pego outro em seguida. Vez em quando os olhos caem e, baixos ainda, eu penso na gente, e dolorida, eu apago o coração como aquelas lousinhas mágicas de quando a gente é criança e fica a tarde toda esfregando a ponta da caneta até ela fundir de cor rosa choque. Eu sei que as coisas se tornarão mais simples porque eu busco a perdição, estou sempre pronta para o término e não entendo como as pessoas conseguem estar trinta-e-tantos anos juntas ou trabalhar no mesmo lugar por dezessete anos. Para mim, essas pessoas foram postas ali, desse jeito sempre estiveram e não sei não, se o álbum de fotografias delas não foi burlado por algum ser maior que me foge à perspectiva.
Eu vivo no mundo alien, que se incomoda com os hábitos e os traços da rotina que não podem, não podem e não terão vazão para virar rotina. Porque eu fujo de mim mesma e não é preciso entorpecentes para saber que o meu dolorido inconsciente flutua dentro de mim e eu nunca o alcanço. A minha irmã diz que é culpa do sol na casa doze. Eu não consegui investigar o que significava isso por falta de website. E quaisquer que sejam meus motivos, eu volto pra terapia. Eu sou a garota-propaganda da terapia. Eu exijo que no meu mundo perfeito todos sejam os perfeitos seguidores da perfeição perfeita. E ai de quem, aqueles que sob desaforo à minha regência, escorregarem em erros crassos de seres humanos. Ai deles, não quererem enxergar. Porque enxergar sem ser míope dói e no meu mundo ideal, estar disponível para a dor é estar disponível para não ter retorno. E não ter retorno é o que coça nos que procuraram transcender de espírito. E um dia eu vou, eu vou te convencer.
Eu vivo no mundo alien, que se incomoda com os hábitos e os traços da rotina que não podem, não podem e não terão vazão para virar rotina. Porque eu fujo de mim mesma e não é preciso entorpecentes para saber que o meu dolorido inconsciente flutua dentro de mim e eu nunca o alcanço. A minha irmã diz que é culpa do sol na casa doze. Eu não consegui investigar o que significava isso por falta de website. E quaisquer que sejam meus motivos, eu volto pra terapia. Eu sou a garota-propaganda da terapia. Eu exijo que no meu mundo perfeito todos sejam os perfeitos seguidores da perfeição perfeita. E ai de quem, aqueles que sob desaforo à minha regência, escorregarem em erros crassos de seres humanos. Ai deles, não quererem enxergar. Porque enxergar sem ser míope dói e no meu mundo ideal, estar disponível para a dor é estar disponível para não ter retorno. E não ter retorno é o que coça nos que procuraram transcender de espírito. E um dia eu vou, eu vou te convencer.
quarta-feira, outubro 08, 2008
A queda
Também disseram que os mitos me ajudariam. Era o que eu lia no momento, eu sofria por não enxergar, procurava respostas em horóscopos e frases mágicas que imprescindivelmente surgiriam nas entrelinhas das minhas conversas rotineiras com qualquer pessoa com que eu cruzasse. Eu acreditava que daria certo, que ele mudaria, que eu faria todo aquele papel já ensaiado. Mas eu continuava doída e doida.
segunda-feira, setembro 22, 2008
Tenho. Ponto final.
Tenho que fixar horário para escrever, sentar-me à frente do computador, sem café porque não tem pó e sem a xícara porque já deve estar quebrada hora dessas. depois eu não tenho tempo para enfermidades, não sei recusar propostas baratas, é só isso o que me dão mesmo, todas baratas, cinquentinha e tá resolvido. talvez não me dê o devido valor, mas é piegas e sem auto-estima espalhar isso por aí. depois tem o virar a cara e dizer que fui eu quem fiz primeiro. eu costumo fazer isso quando tem porralouquice na minha cabeça e só faço com alguns bem escolhidinhos a dedo, considere-se privilegiado se estiver na lista. e isso aqui é lista de reclamação, tá? só confirmando se dá pra entender. faz cara de quem concorda, mas nem importa, nem vou ficar sabendo mesmo. Ponto final.
segunda-feira, agosto 25, 2008
segunda-feira, agosto 18, 2008
O homem nulo
Me cutucou o ombro e apesar de odiar ser cutucada, me disse logo de imediato que era importante e resolvi me espichar pro papel. Dizia "Clínica dos Olhos" e embaixo algumas informações sobre ele, o paciente que me cutucava e indagava qual era o endereço escrito ali. E apontava no lugar certo, porque apesar de não saber ler, sabia que perto de uns números viria algo parecido com rua tal. Eu lhe disse Rua Aurora, mas avisei que não sabia onde ficava. Me arrastou uma expressão canino-decepcionada. Ora, eu sabia ler, mas ainda não era o google maps. Mostrou-se ainda mais ansioso, alisava a camisa boa e branca, a escolhida pra consulta dos olhos e observava com cabeça de ventilador as avenidas, todas elas com letras escritas compridas, placas grandes e nada compreendidas. E pra que precisava de olhos bons se não podia ler? Pediu-me licença e espremeu em mim sua sacola plástica. Foi até o cobrador e este lhe direcionou: é no próximo. Desce e vai pra esquerda. Obedeceu inquestionavelmente. Não sei se foi pra esquerda. Não sei nem se ele foi mesmo ver os olhos, se o papel era pra ele, se era ele o paciente, se queria enxergar algo além de ruas sem nomes. Ele era, pra mim, o estrangeiro eterno, o homem que nasceu e morreu em país alheio, que não falava a língua do meu mundo. Ele era o homem nulo.
quarta-feira, agosto 13, 2008
Entranhas Estranhas
Ainda não entrei em bifurcação
e reconheço, no entanto,
que este momento há de chegar
quando as minhas duas histórias,
em universos paralelos irão coexistir
mas talvez o meu corpo,
o meu tão leve-pesado corpo,
apenas sinta uma delas e a outra,
esta irá se distrair num lugar tão próximo
que não saberei enxergar
e reconheço, no entanto,
que este momento há de chegar
quando as minhas duas histórias,
em universos paralelos irão coexistir
mas talvez o meu corpo,
o meu tão leve-pesado corpo,
apenas sinta uma delas e a outra,
esta irá se distrair num lugar tão próximo
que não saberei enxergar
Passivo-mudo
Escrever é uma deficiência física
O autor mudo tem voz que não existe
Os dedos comandam um evento independente
Rabiscam, guardam, deletam e assinam
Palavras infiéis ao corpo presente
O autor mudo tem voz que não existe
Os dedos comandam um evento independente
Rabiscam, guardam, deletam e assinam
Palavras infiéis ao corpo presente
segunda-feira, agosto 11, 2008
Entre a crise e o Artista
Eu me lembro de quando as formas se tomavam quase que autonomamente, sem a minha breve consciência e eu apenas assinava perto do rodapé. Naquele tempo eu ainda não havia decidido assinatura qualquer e rabiscava por horas alguns traços arredondados, que supostamente me dariam um futuro status como artista. Era, então, preciso ter nome forte, nem que fosse necessário nascer novamente, recriar minha identidade. Afinal de contas, quantas célebres pessoas são designadas pelo real nome quando expõem sua arte?
Foi quando me levantei e não fui famoso. O lucro não sairia de histórias de cinema bem-sucedidas, os livros tão queridos e capas imaginadas, os sonhos anotados e a cabeça desconcertada... Nada viria. Nem as noites de porre e isolamento pleno, nem os diagnósticos mal feitos e amores mal lavados ou qualquer ponta de desequilíbrio me levariam a ser conhecido.
A cabeça travou por alguns segundos, olhei para os lençóis que nunca troco da cama, abri a enorme janela suja e lá embaixo o sempre poste de luz. Os prédios não passavam de imundícies, o ar paulistano era somente poluído, os antes desgraçados vendedores de alma tornaram-se apenas pessoas preocupadas com dinheiro e beber a água velha da geladeira não era mais sinestésico e a cozinha de chão de barro não me lembrava infância alguma. Eu queria sumir de mim, eu queria ser aquilo de antes e tive dúvidas se realmente tinha sido artista um dia.
Resolvi me levantar aos poucos para diminuir a tontura. Os pés descalços no chão de tacos. Tropecei em dois soltos que quase me voaram o pijama. Isso me fez acordar abruptamente: estava acontecendo? Um banho veio em mente que talvez trouxesse minha poesia de volta. Agora era o momento de o chuveiro levar o pesadelo pro ralo. Esfrega, esfrega e o sabonete só espanta o nojo momentaneamente. Corri pra fora do banheiro e encharquei o corredor inteiro. Vesti o primeiro casaco do monte, me sequei em um par de calças velhas, as vesti, destranquei a porta e desci andares de escada. Apalpei os bolsos no descer. Térreo e encontro o vizinho. Tem um fósforo? Tinha.
Tossi alguns velhos escarros. Eles me recordavam a poesia. Mas ainda não era ela. Quem sabe abrir a porta de entrada e esbarrar em algum desconhecido, subir e escrever sobre isso?
Esbarrei de propósito e logo considerei bater o barbudo na cara. Homem estúpido, dia ensolarado sem nada, pessoas porcas mijam nas ruas e eu vou me deitar agora. Aqui, nessa calçada de saco-de-lixo pra um homem como eu, homem-lixo, homem-mijo, homem sem nenhuma razão. Terminei o cigarro, joguei-o na poça encardida que me refletia. Um cão se aproximou e lambeu a melação. Não me passou nada. Respirei três vezes e ergui a cabeça pro céu. O sol me fez espirrar e decidi: hoje eu vou dormir. O dia não veio pra mim.
Foi quando me levantei e não fui famoso. O lucro não sairia de histórias de cinema bem-sucedidas, os livros tão queridos e capas imaginadas, os sonhos anotados e a cabeça desconcertada... Nada viria. Nem as noites de porre e isolamento pleno, nem os diagnósticos mal feitos e amores mal lavados ou qualquer ponta de desequilíbrio me levariam a ser conhecido.
A cabeça travou por alguns segundos, olhei para os lençóis que nunca troco da cama, abri a enorme janela suja e lá embaixo o sempre poste de luz. Os prédios não passavam de imundícies, o ar paulistano era somente poluído, os antes desgraçados vendedores de alma tornaram-se apenas pessoas preocupadas com dinheiro e beber a água velha da geladeira não era mais sinestésico e a cozinha de chão de barro não me lembrava infância alguma. Eu queria sumir de mim, eu queria ser aquilo de antes e tive dúvidas se realmente tinha sido artista um dia.
Resolvi me levantar aos poucos para diminuir a tontura. Os pés descalços no chão de tacos. Tropecei em dois soltos que quase me voaram o pijama. Isso me fez acordar abruptamente: estava acontecendo? Um banho veio em mente que talvez trouxesse minha poesia de volta. Agora era o momento de o chuveiro levar o pesadelo pro ralo. Esfrega, esfrega e o sabonete só espanta o nojo momentaneamente. Corri pra fora do banheiro e encharquei o corredor inteiro. Vesti o primeiro casaco do monte, me sequei em um par de calças velhas, as vesti, destranquei a porta e desci andares de escada. Apalpei os bolsos no descer. Térreo e encontro o vizinho. Tem um fósforo? Tinha.
Tossi alguns velhos escarros. Eles me recordavam a poesia. Mas ainda não era ela. Quem sabe abrir a porta de entrada e esbarrar em algum desconhecido, subir e escrever sobre isso?
Esbarrei de propósito e logo considerei bater o barbudo na cara. Homem estúpido, dia ensolarado sem nada, pessoas porcas mijam nas ruas e eu vou me deitar agora. Aqui, nessa calçada de saco-de-lixo pra um homem como eu, homem-lixo, homem-mijo, homem sem nenhuma razão. Terminei o cigarro, joguei-o na poça encardida que me refletia. Um cão se aproximou e lambeu a melação. Não me passou nada. Respirei três vezes e ergui a cabeça pro céu. O sol me fez espirrar e decidi: hoje eu vou dormir. O dia não veio pra mim.
segunda-feira, agosto 04, 2008
As minhas Lágrimas de Dois Segundos
O dia não me permite lágrimas por mais de dois segundos. Às seis da manhã, o buraco no estômago e vai a primeira leva de dois. O corpo frágil se arruma então, pra um dia inteiro de contas regadas a pingos curtos. Às nove, o disfarce no metrô, ler o jornal com a cara enfiada, mas ninguém percebe mesmo as minhas lágrimas de dois segundos. O trabalho corre seco, fingido de sorriso. E tem a saída, voltar para o ônibus, caminho inverso. Outro cobrador, ótimo. Podem-se ir mais dois segundos. O andar arrastado pelas ruas que me fazem pensar nesse choro à prestação, causam meus próximos dois segundos. Comprar comida no nosso varejão, parar em frente ao prédio e o carro não estar lá me surram dois segundos. Abrir a porta do apartamento e não ter barulho, suspiro. Olhar pra tudo e pra nada, porque tudo foi retirado... Assustada, mais dois segundos. Não comer, não comer, não comer. Banho, água com dois segundos. Ir até a locadora, dois segundos. Andar na Paulista, dois segundos. Não receber telefonema, mais dois segundos. Subir pro trabalho novamente vestida de contente, cansa mais ainda. Fazer frio no ponto de ônibus e eu sozinha. Pensar em voltar pra casa, dois segundos. Todo o movimento noturno, mais triste sem o sol, a falta do carro, o elevador, a porta trancada, o não-barulho, a cama branca, eu deitada. Finalmente respiro: é a vez das minhas lágrimas mil vezes dois segundos.
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