Eu dizia: Conhaque não! Conhaque não bebo, num gosto.
Mas é só colocar um pouco de limão, você vai ver.
E não adiantou.
Então fuma um charuto, você vai ver. Ajuda.
Fumei charuto, fumei cigarro de tudo quanto é tipo de degustação. Não ajudou.
Peguei o carro, o doido que me pediu carona carregava uma balança.
Tô indo comprar um fumo. Vou pesar. É um esquema assim, o cara não sabe que tá vendendo pra mim, mas o amigo sabe. Levo minha escova de dente. Durmo lá. Pode me deixar na esquina. Isso. Quer ir também?
Não, obrigada. Vou dormir, fingir que gostei. Que gostei do conhaque.
quarta-feira, maio 09, 2007
domingo, maio 06, 2007
Gente inadequada gosta assim
Olha e ouve bem. Ninguém mandou acordar seminua. Hm-hm. Isso. Pega e junta tudo pra mais uma coleção. Você também não vai se recordar muito daqui a pouco. Ora, nem sequer sabe direito se gosta de vestir par de meia no inverno ou não, num faz tanta diferença assim. Tá ótimo pelas previsões então. Num sabe o que houve, finge algo completamente fantasioso e põe ponto final, como é de costume.
Tem um pouco de gosto na garganta, né? Eu sei. Mas isso também dá pra fingir de não-acontecido. O resto, bola pra frente, a gente tem simpatizantes. Impossível você ter sido a única que não enxergou direito os arredores. Tava bêbada, tava lá tentando dar de entendida com coisa que não entende. Acontece também. Como corpo conselheiro, eu diria pra ficar em casa no resto do final de semana que te sobra e escrever sobre isso, de forma bem malabares: corrigindo tudo milimetricamente. Claro que o português não colabora. De todas essas palavras, você reescreve tudinho. É assim mesmo, sabe? Tem que rolar tudo inadequado porque gente inadequada só gosta disso. Desse tipo de história pra contar. Peraí. Tô corrigindo minhas linhas. Hm-hm. Pronto. Continua. O que era mesmo? Ah. Gente inadequada. Que tá com dor de cabeça mas faz bonito. Sorri feliz "esse é meu trabalho, viu?". Poucos viram. Pouquíssimos verão. Quantos outonos e invernos?
É. Piada infame. Pára tudo. Volta lá pra cama que estava melhor. Quem sabe um dia você ainda cria algo, que já não foi tão criado assim, mas que meia dúzia de ignorantes não saibam e te chamem de gênio. Seria legal, bem legal. Enganar assim e rir sozinha.
E arte não vem do peido, não adianta. Você passa por tudo isso, recorta algumas palavras, que-bonito-que-eu-escrevi, mas também, nada de novo. As pessoas não estão interessadas no seu papo. Caso estivessem, seria preocupante.
Tá. Meia-volta e deita. Hm-hm. Estira lá o corpo , esquece o peido, esquece qualquer assunto maior.
Bonito que acabou... eu acho.
Tem um pouco de gosto na garganta, né? Eu sei. Mas isso também dá pra fingir de não-acontecido. O resto, bola pra frente, a gente tem simpatizantes. Impossível você ter sido a única que não enxergou direito os arredores. Tava bêbada, tava lá tentando dar de entendida com coisa que não entende. Acontece também. Como corpo conselheiro, eu diria pra ficar em casa no resto do final de semana que te sobra e escrever sobre isso, de forma bem malabares: corrigindo tudo milimetricamente. Claro que o português não colabora. De todas essas palavras, você reescreve tudinho. É assim mesmo, sabe? Tem que rolar tudo inadequado porque gente inadequada só gosta disso. Desse tipo de história pra contar. Peraí. Tô corrigindo minhas linhas. Hm-hm. Pronto. Continua. O que era mesmo? Ah. Gente inadequada. Que tá com dor de cabeça mas faz bonito. Sorri feliz "esse é meu trabalho, viu?". Poucos viram. Pouquíssimos verão. Quantos outonos e invernos?
É. Piada infame. Pára tudo. Volta lá pra cama que estava melhor. Quem sabe um dia você ainda cria algo, que já não foi tão criado assim, mas que meia dúzia de ignorantes não saibam e te chamem de gênio. Seria legal, bem legal. Enganar assim e rir sozinha.
E arte não vem do peido, não adianta. Você passa por tudo isso, recorta algumas palavras, que-bonito-que-eu-escrevi, mas também, nada de novo. As pessoas não estão interessadas no seu papo. Caso estivessem, seria preocupante.
Tá. Meia-volta e deita. Hm-hm. Estira lá o corpo , esquece o peido, esquece qualquer assunto maior.
Bonito que acabou... eu acho.
Você não, né?
sábado, abril 28, 2007
Essas coisas cafonas
Fiquei aqui narrando em primeira pessoa. Puro monólogo. Não tinha ninguém pra ouvir meu discurso. Mas tudo bem, porque eu desde criança costumava contar história pro espelho. Como se lá dentro habitassem infinitos espectadores, todos muito interessados. Agora já não tenho mais essa coisa de amigo imaginário. A gente cresce e fica com vergonha. A gente acha tudo muito cafona, quando na verdade não passa de um bando de enrustido, sempre agindo conforme a platéia.
Mas, poxa, você não acha que escrever num teclado de computador, num sábado à noite, num é como ter um amigo imaginário? Só que é assim, mais aceitável, porque você tem que saber digitar as letrinhas certas e fingir que tem todo um assunto que vai chegar a algum lugar, tem que ter tese e síntese, tem que ter todas essas coisas cafonas que os adultos evitam.
Mas, poxa, você não acha que escrever num teclado de computador, num sábado à noite, num é como ter um amigo imaginário? Só que é assim, mais aceitável, porque você tem que saber digitar as letrinhas certas e fingir que tem todo um assunto que vai chegar a algum lugar, tem que ter tese e síntese, tem que ter todas essas coisas cafonas que os adultos evitam.
domingo, abril 22, 2007
O batom
A mancha que você deixou nos lençóis não vou limpar. Pretendo deixá-la ali, secando pra ter o que guardar. E você foi embora assim, batendo as portas, jogando tudo nosso fora. Pensou o quê? Que eu não fosse mais respirar? Que ficaria ali, apodrecendo junto à poça seca? Que evitaria contar pros nossos conhecidos que você me deixou a fim de te esperar voltar?
Pois eu digo que nada disso vai acontecer. Eu guardei a mancha junto a tudo que vivemos, numa das minhas tantas gavetas velhas. Assim ninguém me rouba. Porque de roubo, já cansei do que você me tirou. E também tem o gato, todo estabanado, que vive se entrelaçando pelas minhas pernas. Vou guardá-lo também. Assim quem sabe ele não mia mais seu nome.
Não estou chateada, não estou mesmo. Eu guardo tudo, não tem problema, não. Você era só mais um que faria isso. É inevitável, bem inevitável. Fumo um cigarrinho, lavo os cabelos e estou pronta. Desço até o café mais próximo. E tudo bem se tiver que descer cinco lances de escada. Agora tenho tempo, não tem quem me apresse pra me arrumar. Passar batom, nem pensar!
Lembro quando você me deu aquele batom horrível de marca barata com cheiro de morango. Eu nunca gostei, nunquinha. Fazia por você.
Mas teve. Teve aquela vez, sim, quando eu estava no banheiro, analisando minuciosamente todos os poros do meu rosto, toda atenta, compenetrada. Tinha certeza que estava sozinha. Mas você se aproximou silenciosamente . E segurou firme na minha cintura nua e molhada. Ajoelhou-se e a beijou fugaz . Ergueu-se, virando meu corpo de frente pro teu. E ainda em silêncio passou o batom nos meus lábios. Beijou-os, virou-se e foi dormir.
Hmmm.... esse batom... talvez eu fique com o batom.
Pois eu digo que nada disso vai acontecer. Eu guardei a mancha junto a tudo que vivemos, numa das minhas tantas gavetas velhas. Assim ninguém me rouba. Porque de roubo, já cansei do que você me tirou. E também tem o gato, todo estabanado, que vive se entrelaçando pelas minhas pernas. Vou guardá-lo também. Assim quem sabe ele não mia mais seu nome.
Não estou chateada, não estou mesmo. Eu guardo tudo, não tem problema, não. Você era só mais um que faria isso. É inevitável, bem inevitável. Fumo um cigarrinho, lavo os cabelos e estou pronta. Desço até o café mais próximo. E tudo bem se tiver que descer cinco lances de escada. Agora tenho tempo, não tem quem me apresse pra me arrumar. Passar batom, nem pensar!
Lembro quando você me deu aquele batom horrível de marca barata com cheiro de morango. Eu nunca gostei, nunquinha. Fazia por você.
Mas teve. Teve aquela vez, sim, quando eu estava no banheiro, analisando minuciosamente todos os poros do meu rosto, toda atenta, compenetrada. Tinha certeza que estava sozinha. Mas você se aproximou silenciosamente . E segurou firme na minha cintura nua e molhada. Ajoelhou-se e a beijou fugaz . Ergueu-se, virando meu corpo de frente pro teu. E ainda em silêncio passou o batom nos meus lábios. Beijou-os, virou-se e foi dormir.
Hmmm.... esse batom... talvez eu fique com o batom.
A Evolução do Macaco
Macaco chafurdando na lama não existe, disso eu sei. Ele não fica ali se lambuzando, não. Deixa pro porco, que não tem coisa melhor pra fazer. Agora macaco também não pega a máquina de escrever e datilografa, disso eu também sei. Macaco é meio assim, meio gente, meio porco. Não faz nenhum, nem outro.
quarta-feira, março 28, 2007
Desastres do Amor - parte II
- Fala.
- Fala você primeiro.
- Não. Fala você, vaaaai.
- Você!
- Não. Fala você, amorzinho... hihihi.
- Tá bom. É que...
- Não!! Deixa eu falar então.
- Mas você não disse que era pra eu falar?
- É, mas se você for dizer algo difícil de eu ouvir, algo com o qual eu não possa lidar, eu prefiro falar antes.
- Mas...
- Sério. Eu não suportaria.
- Mas eu só ia dizer...
- Na verdade, não fala mais nada.
- Tá. Então eu não falo, mas você fala.
- Esqueci.
- Fala você primeiro.
- Não. Fala você, vaaaai.
- Você!
- Não. Fala você, amorzinho... hihihi.
- Tá bom. É que...
- Não!! Deixa eu falar então.
- Mas você não disse que era pra eu falar?
- É, mas se você for dizer algo difícil de eu ouvir, algo com o qual eu não possa lidar, eu prefiro falar antes.
- Mas...
- Sério. Eu não suportaria.
- Mas eu só ia dizer...
- Na verdade, não fala mais nada.
- Tá. Então eu não falo, mas você fala.
- Esqueci.
sábado, março 24, 2007
Funeral
Eu pulo um dia
E vivo outros dois
Me amarro na segunda
E na sexta já se foi
Mas há tão pouco tempo
Pra se viver um sentimento
Não se passou o sábado
E você jaz aqui dentro
E vivo outros dois
Me amarro na segunda
E na sexta já se foi
Mas há tão pouco tempo
Pra se viver um sentimento
Não se passou o sábado
E você jaz aqui dentro
quinta-feira, março 22, 2007
Desastres do Amor - parte I
- Você sabe que é o amor da minha vida?
- Ah... Pára!
- Não. Sério. Eu nunca gostei de ninguém assim.
- Iiiih. Você fala isso pra todo mundo.
- Falo não...
- Fala sim.
- Tá bom. Eu já falei. Mas foi diferente.
- Diferente como?
- Não foi pra você, ora.
- Tá vendo?
- Ah... Pára!
- Não. Sério. Eu nunca gostei de ninguém assim.
- Iiiih. Você fala isso pra todo mundo.
- Falo não...
- Fala sim.
- Tá bom. Eu já falei. Mas foi diferente.
- Diferente como?
- Não foi pra você, ora.
- Tá vendo?
domingo, março 11, 2007
Minha memória e meus esquecimentos
A minha memória não é muito confiável. Vivo esquecendo as coisas próximas que aconteceram ou que estão para acontecer. Mas também acho que selecionamos o que queremos guardar. Eu consigo claramente lembrar de cenas minhas andando no inverno chuvoso de Londres, de entrar no metrô com a mala nas costas pra ir pra Itália, de dividir meu discman com o Tris e cantarolar numa balsa na Tailândia, de dividir um quarto com um inglês bêbado na Nova Zelândia, de visitar sebos em Londrina enquanto morei lá, de ter descoberto que meu pai estava no hospital quando eu lia Olhai os Lírios dos Campos, do Érico Veríssimo. Me lembro de ter recebido um beijo roubado do meu ex-namorado quando eu ainda tinha 16e de ter reaparecido depois de oito anos pra cortar o coração dele novamente.
Lembro de ter entrado um espinho na sola do meu pé quando era criança. E do quanto eu não queria que a minha mãe o tirasse por medo de doer. Mas por tê-lo deixado ali, uma bolha o foi envolvendo e dentro de poucos dias eu não podia pisar com aquele pé. Aí minha mãe teve que estourar a bolha e extrair dolorosamente o meu segredo de espinho.
Lembro do meu amigo imaginário, Bruno, que era o nome de um colega de sala de aula na minha infância, que morreu aos nove anos de idade. Ele era filho da minha professora preferida: de inglês. E eu passava horas conversando com ele, num inglês que eu inventava diariamente na minha cabeça.
Lembro de ter tido o meu primeiro gato. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro de terem matado meus dois gatos envenenados. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro do meu melhor e do meu pior beijo.
Lembro de ter visto a minha mãe chorar muitas vezes.
E lembro de ter chorado achando que ia morrer num país estrangeiro.
Lembro de um ex-namorado se esconder atrás de uma prateleira de pães num supermecado pra não me encontrar. E de como eu morri de raiva e de rir com isso.
Lembro de na adolescência ter recebido um bouquet de rosas vermelhas na sala de aula e de ter esperado todo mundo sair da escola pra eu não ter que desfilar com elas na frente dos outros alunos. E de ter deixado as flores secarem porque fiquei com raiva do moleque que fez algo que eu não estava preparada para passar.
Lembro de já ter reclamado por não receber flores.
Lembro de já ter me apaixonado rapidamente e também ter deixado de gostar rapidamente.
Lembro de quando a minha irmã se casou e de como me senti traída por isso.
Lembro de sempre tocar clarineta errado nas audições porque ficava muito nervosa. E várias vezes tive que recomeçar a música.
Lembro de a minha mãe ter visto eu beijando um garoto no sofá quando eu tinha 17 anos e de tê-lo mandado embora pra casa.
Lembro de já ter considerado ser freira.
Lembro de já ter me achado louca de um dia ter sequer pensando em ser freira.
Eu lembro de muitas coisas quando elas me importam. Mas também já esqueci de muitas memórias porque não suportaria guardá-las comigo. E elas precisavam dar espaço para outras menos doloridas.
Lembro do momento que recebi a notícia da morte da minha avó. Mas esse foi um dia que não pretendo esquecer.
Lembro de ter entrado um espinho na sola do meu pé quando era criança. E do quanto eu não queria que a minha mãe o tirasse por medo de doer. Mas por tê-lo deixado ali, uma bolha o foi envolvendo e dentro de poucos dias eu não podia pisar com aquele pé. Aí minha mãe teve que estourar a bolha e extrair dolorosamente o meu segredo de espinho.
Lembro do meu amigo imaginário, Bruno, que era o nome de um colega de sala de aula na minha infância, que morreu aos nove anos de idade. Ele era filho da minha professora preferida: de inglês. E eu passava horas conversando com ele, num inglês que eu inventava diariamente na minha cabeça.
Lembro de ter tido o meu primeiro gato. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro de terem matado meus dois gatos envenenados. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro do meu melhor e do meu pior beijo.
Lembro de ter visto a minha mãe chorar muitas vezes.
E lembro de ter chorado achando que ia morrer num país estrangeiro.
Lembro de um ex-namorado se esconder atrás de uma prateleira de pães num supermecado pra não me encontrar. E de como eu morri de raiva e de rir com isso.
Lembro de na adolescência ter recebido um bouquet de rosas vermelhas na sala de aula e de ter esperado todo mundo sair da escola pra eu não ter que desfilar com elas na frente dos outros alunos. E de ter deixado as flores secarem porque fiquei com raiva do moleque que fez algo que eu não estava preparada para passar.
Lembro de já ter reclamado por não receber flores.
Lembro de já ter me apaixonado rapidamente e também ter deixado de gostar rapidamente.
Lembro de quando a minha irmã se casou e de como me senti traída por isso.
Lembro de sempre tocar clarineta errado nas audições porque ficava muito nervosa. E várias vezes tive que recomeçar a música.
Lembro de a minha mãe ter visto eu beijando um garoto no sofá quando eu tinha 17 anos e de tê-lo mandado embora pra casa.
Lembro de já ter considerado ser freira.
Lembro de já ter me achado louca de um dia ter sequer pensando em ser freira.
Eu lembro de muitas coisas quando elas me importam. Mas também já esqueci de muitas memórias porque não suportaria guardá-las comigo. E elas precisavam dar espaço para outras menos doloridas.
Lembro do momento que recebi a notícia da morte da minha avó. Mas esse foi um dia que não pretendo esquecer.
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