sexta-feira, novembro 27, 2009

Dois quarteirões

De manhã gosto de café na padaria dois quarteirões acima de casa. O cigarro me mostra cedo e díário que deveria parar de fumar. A subida é leve, o pulmão pesa e a consciência eu nem sei mais o que é isso. Deixei para trás os dias em que eu tinha interesse por mim mesmo. Agora caminho.
Quando adentro o recinto, ela está acomodada em seu banco fixo, onde o sol bate com feixe diagonal no balcão dos bêbados. Minha rotina é sentar-me na mesa de trás de onde vejo os cabelos de banho recente pesados nas costas e o ajeitar do shorts azul no meio das coxas, que eu sei que se chegar perto vão ter pontos de pêlos por fazer. Eu quero teus pêlos nos meus pêlos. Eu quero a brevidade de abrir o sutiã, de eu não te existir  e te querer por somente o tempo dos dois quarteirões que me levam até você.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Me esforçava, mas abri os olhos por não dormir, mirei o relógio que brilhava vermelho e me senti fracassada. Eu queria me rasgar de amor e o sono me observava de longe e eu não tinha ninguém para amar. Eu me amava sozinha  em dias de ensaio pra um espetáculo que não ia existir. Queria sentir o seco que fica na garganta quando acaba a água da conversa e os dois se olham, vira cena de filme demodé.
Eu sou antiga apesar de nova, sou atrasada pro contemporâneos casais que se apaixonam por precauções realistas. Eles dividem os mesmos gostos, ganham o mesmo salário, tratam-se como funcionários e agendam local e hora para o amor.

segunda-feira, setembro 07, 2009

para Alessandra

Prometi que eu me tentaria interessante nessa nova vez, que guardaria alguns silêncios de fotografia para estar aqui, fingiria bem que é possível sentir voz minha nessa escrita toda, divagaria vocábulos perdidos de acento dentro da emergente gramática brasileira doida, me completaria então de burra pátria amada pro sete de setembro, me convenceria de que meus sonhos podem esperar mais um pouco para acontecerem, que não daria tantos ouvidos à fome e ao fato de que o dinheiro não aparece em blog.
Prometido é pra cumprir, né não?

sábado, julho 11, 2009

que

eu haveria de ser a que saiu da sua vida, que faria tudo para que voce me esquecesse, que me sumisse no banho o rastro de voce na minha e eu na sua. que me sumisse por inteiro e que me faria nova de novo, me lavasse e colocasse bem longe das suas coisas, que não mais minhas seriam e eu faria das minhas todas distantes de voce. que nao me compreendesse, que me fizesse doida de voce longe de mim, que pedisse nem um pouco mais e se arrependeria em seguida.

quinta-feira, maio 07, 2009

Eu não sou o alguém que você almejou

Eu tenho que me tornar o alguém que tanto você almejou
Eu tenho que me ser aquele que não sou mas pra você eu sou
Porque você me diz que fique bem claro
Que é da minha arte que se encantou
E ainda devo chegar no alguém que você muito queria,
mas é uma pena
Eu ainda não sou

sábado, janeiro 10, 2009

Despues de tres copas de viño, ic, yo hablo castellano, ic, saco fotos para turistas porteños, ic, comprendo todas las gentes, ic, soy feliz, ic, pero no mucho.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Hoy yo soy vos

Transportar-se sozinho para o estrangeiro é fazer-se cao sem dono, é assumir as noites quentes em lencois malemálavados, comer em bar de moscas, nao ter parceria para rir, abandonar todo conforto caseiro e andar até os pés doerem somente para tentar entender nem se sabe o quê. É como se achar e se fugir, é pensar no que deixou para trás e procurar nao se enganar que é só porque o ano virou que as coisas serao diferentes de uma vez por todas. É tomar umas a mais e ninguem te saber. É gastar um dinheiro absurdo em coisas inúteis e depois perceber a pisada, é olhar pro lado e pensar que está todo mundo te reparando sozinho caminhando, mas na verdade ninguém tá, seu neurótico. É se hospedar no pior buraco da cidade porque é o mais barato e fingir que é porque vai fazer amigos, mas quando alguém logo te abre a boca reza fundo para parar já. É ouvir ronco de gente estranha num quarto que nao é de ninguém e querer socar. É tomar banho de chinelos para nao pegar micose alheia, é dividir o banheiro. Pior, é aceitar dividir o banheiro. E mais pra frente, é já ter feito isso incontáveis vezes, fazer de novo e jurar que nunca mais. Aí chega a próxima oportunidade e tu vai e compra o ticket.

sexta-feira, novembro 21, 2008

O intervalo

Não aguardaria uma vida inteira por momentos adequados. Quando me tornei só, constatei que as pessoas sós têm muito mais a si mesmas. Naquela escolha pela solidão me vi desesperada por libertar-me dos outros, por enganar a vida com expectativas pequenas a fim de quando minhas próximas conquistas acontecessem eu pudesse me impressionar como quem tem a loteria ganha. Todo esse processo durou doze meses, até eu voltar a me sabotar e novamente achar qualquer cara interessante quando era apresentada a ele. Eram amigos de amigos, vizinhos que eu nunca havia reparado ou mesmo uns colegas de trabalho, mesmo os mais esquisitos e rejeitados. Eu realmente estava só.
Foi quando num bar estávamos somente os três. Eu, o gordo careca à minha direita e o meu futuro próximo namorado. Eu tinha ido bem até então, dois semestres toda livre de amarras e cheia de auto-controle. Mas tambem sabia que após alguns minutos e uns copos de cerveja ele se aproximaria. Já havíamos nos notado e eu não pude deixar de reparar que o seu jeans era o meu favorito. Nada muito surrado, azul escuro e contínuo, a parte detrás da barra um pouco desfeita. Perfeito. A camiseta não me agradava muito, mas a barba ruiva e lisa aparada sob medida, os cabelos negros com alguns fios manchados de sol, todos esses fatores me permitiam imaginar que chegaria até mim com o melhor dos dizeres.
Quando se apresentou, seu nome era desses que eu já planejava combinar com o meu como tantas vezes já havia feito. O sobrenome não me disse, mas faltava pouco para pensarmos nos nossos filhos e a data de casamento. Ele sorria de lado e desconcertado como quem não quer falar de si. Fazia muitas perguntas e dissimulava quando eu as retornava.
Era do que eu precisava me reabastecer, já que o amor para mim sempre foi algo muito triste e prazeroso. E se ele pudesse demonstrar nessa singela troca de palavras que era incapaz de me amar por completo, mas que me desejava por inteiro, lá estaria eu, mais uma vez nos lençóis das migalhas. E esta, sem me boicotar, era a minha verdadeira realização.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Garota-propaganda

Eu dou passos largos de fuga de mim mesma, já que entrei em tanta mirabolante complicação que eu sei, mais uma vez, terei que escapar. E a única coisa que me acalma é arranjar um assento no ônibus, qualquer linha, nem que seja o lugar dos velhos e grávidas. Aí o cobrador sempre me avisa o ponto, eu desço e pego outro em seguida. Vez em quando os olhos caem e, baixos ainda, eu penso na gente, e dolorida, eu apago o coração como aquelas lousinhas mágicas de quando a gente é criança e fica a tarde toda esfregando a ponta da caneta até ela fundir de cor rosa choque. Eu sei que as coisas se tornarão mais simples porque eu busco a perdição, estou sempre pronta para o término e não entendo como as pessoas conseguem estar trinta-e-tantos anos juntas ou trabalhar no mesmo lugar por dezessete anos. Para mim, essas pessoas foram postas ali, desse jeito sempre estiveram e não sei não, se o álbum de fotografias delas não foi burlado por algum ser maior que me foge à perspectiva.
Eu vivo no mundo alien, que se incomoda com os hábitos e os traços da rotina que não podem, não podem e não terão vazão para virar rotina. Porque eu fujo de mim mesma e não é preciso entorpecentes para saber que o meu dolorido inconsciente flutua dentro de mim e eu nunca o alcanço. A minha irmã diz que é culpa do sol na casa doze. Eu não consegui investigar o que significava isso por falta de website. E quaisquer que sejam meus motivos, eu volto pra terapia. Eu sou a garota-propaganda da terapia. Eu exijo que no meu mundo perfeito todos sejam os perfeitos seguidores da perfeição perfeita. E ai de quem, aqueles que sob desaforo à minha regência, escorregarem em erros crassos de seres humanos. Ai deles, não quererem enxergar. Porque enxergar sem ser míope dói e no meu mundo ideal, estar disponível para a dor é estar disponível para não ter retorno. E não ter retorno é o que coça nos que procuraram transcender de espírito. E um dia eu vou, eu vou te convencer.

quarta-feira, outubro 08, 2008

A queda

Também disseram que os mitos me ajudariam. Era o que eu lia no momento, eu sofria por não enxergar, procurava respostas em horóscopos e frases mágicas que imprescindivelmente surgiriam nas entrelinhas das minhas conversas rotineiras com qualquer pessoa com que eu cruzasse. Eu acreditava que daria certo, que ele mudaria, que eu faria todo aquele papel já ensaiado. Mas eu continuava doída e doida.