- Fala.
- Fala você primeiro.
- Não. Fala você, vaaaai.
- Você!
- Não. Fala você, amorzinho... hihihi.
- Tá bom. É que...
- Não!! Deixa eu falar então.
- Mas você não disse que era pra eu falar?
- É, mas se você for dizer algo difícil de eu ouvir, algo com o qual eu não possa lidar, eu prefiro falar antes.
- Mas...
- Sério. Eu não suportaria.
- Mas eu só ia dizer...
- Na verdade, não fala mais nada.
- Tá. Então eu não falo, mas você fala.
- Esqueci.
quarta-feira, março 28, 2007
sábado, março 24, 2007
Funeral
Eu pulo um dia
E vivo outros dois
Me amarro na segunda
E na sexta já se foi
Mas há tão pouco tempo
Pra se viver um sentimento
Não se passou o sábado
E você jaz aqui dentro
E vivo outros dois
Me amarro na segunda
E na sexta já se foi
Mas há tão pouco tempo
Pra se viver um sentimento
Não se passou o sábado
E você jaz aqui dentro
quinta-feira, março 22, 2007
Desastres do Amor - parte I
- Você sabe que é o amor da minha vida?
- Ah... Pára!
- Não. Sério. Eu nunca gostei de ninguém assim.
- Iiiih. Você fala isso pra todo mundo.
- Falo não...
- Fala sim.
- Tá bom. Eu já falei. Mas foi diferente.
- Diferente como?
- Não foi pra você, ora.
- Tá vendo?
- Ah... Pára!
- Não. Sério. Eu nunca gostei de ninguém assim.
- Iiiih. Você fala isso pra todo mundo.
- Falo não...
- Fala sim.
- Tá bom. Eu já falei. Mas foi diferente.
- Diferente como?
- Não foi pra você, ora.
- Tá vendo?
domingo, março 11, 2007
Minha memória e meus esquecimentos
A minha memória não é muito confiável. Vivo esquecendo as coisas próximas que aconteceram ou que estão para acontecer. Mas também acho que selecionamos o que queremos guardar. Eu consigo claramente lembrar de cenas minhas andando no inverno chuvoso de Londres, de entrar no metrô com a mala nas costas pra ir pra Itália, de dividir meu discman com o Tris e cantarolar numa balsa na Tailândia, de dividir um quarto com um inglês bêbado na Nova Zelândia, de visitar sebos em Londrina enquanto morei lá, de ter descoberto que meu pai estava no hospital quando eu lia Olhai os Lírios dos Campos, do Érico Veríssimo. Me lembro de ter recebido um beijo roubado do meu ex-namorado quando eu ainda tinha 16e de ter reaparecido depois de oito anos pra cortar o coração dele novamente.
Lembro de ter entrado um espinho na sola do meu pé quando era criança. E do quanto eu não queria que a minha mãe o tirasse por medo de doer. Mas por tê-lo deixado ali, uma bolha o foi envolvendo e dentro de poucos dias eu não podia pisar com aquele pé. Aí minha mãe teve que estourar a bolha e extrair dolorosamente o meu segredo de espinho.
Lembro do meu amigo imaginário, Bruno, que era o nome de um colega de sala de aula na minha infância, que morreu aos nove anos de idade. Ele era filho da minha professora preferida: de inglês. E eu passava horas conversando com ele, num inglês que eu inventava diariamente na minha cabeça.
Lembro de ter tido o meu primeiro gato. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro de terem matado meus dois gatos envenenados. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro do meu melhor e do meu pior beijo.
Lembro de ter visto a minha mãe chorar muitas vezes.
E lembro de ter chorado achando que ia morrer num país estrangeiro.
Lembro de um ex-namorado se esconder atrás de uma prateleira de pães num supermecado pra não me encontrar. E de como eu morri de raiva e de rir com isso.
Lembro de na adolescência ter recebido um bouquet de rosas vermelhas na sala de aula e de ter esperado todo mundo sair da escola pra eu não ter que desfilar com elas na frente dos outros alunos. E de ter deixado as flores secarem porque fiquei com raiva do moleque que fez algo que eu não estava preparada para passar.
Lembro de já ter reclamado por não receber flores.
Lembro de já ter me apaixonado rapidamente e também ter deixado de gostar rapidamente.
Lembro de quando a minha irmã se casou e de como me senti traída por isso.
Lembro de sempre tocar clarineta errado nas audições porque ficava muito nervosa. E várias vezes tive que recomeçar a música.
Lembro de a minha mãe ter visto eu beijando um garoto no sofá quando eu tinha 17 anos e de tê-lo mandado embora pra casa.
Lembro de já ter considerado ser freira.
Lembro de já ter me achado louca de um dia ter sequer pensando em ser freira.
Eu lembro de muitas coisas quando elas me importam. Mas também já esqueci de muitas memórias porque não suportaria guardá-las comigo. E elas precisavam dar espaço para outras menos doloridas.
Lembro do momento que recebi a notícia da morte da minha avó. Mas esse foi um dia que não pretendo esquecer.
Lembro de ter entrado um espinho na sola do meu pé quando era criança. E do quanto eu não queria que a minha mãe o tirasse por medo de doer. Mas por tê-lo deixado ali, uma bolha o foi envolvendo e dentro de poucos dias eu não podia pisar com aquele pé. Aí minha mãe teve que estourar a bolha e extrair dolorosamente o meu segredo de espinho.
Lembro do meu amigo imaginário, Bruno, que era o nome de um colega de sala de aula na minha infância, que morreu aos nove anos de idade. Ele era filho da minha professora preferida: de inglês. E eu passava horas conversando com ele, num inglês que eu inventava diariamente na minha cabeça.
Lembro de ter tido o meu primeiro gato. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro de terem matado meus dois gatos envenenados. E de como nunca mais fui a mesma.
Lembro do meu melhor e do meu pior beijo.
Lembro de ter visto a minha mãe chorar muitas vezes.
E lembro de ter chorado achando que ia morrer num país estrangeiro.
Lembro de um ex-namorado se esconder atrás de uma prateleira de pães num supermecado pra não me encontrar. E de como eu morri de raiva e de rir com isso.
Lembro de na adolescência ter recebido um bouquet de rosas vermelhas na sala de aula e de ter esperado todo mundo sair da escola pra eu não ter que desfilar com elas na frente dos outros alunos. E de ter deixado as flores secarem porque fiquei com raiva do moleque que fez algo que eu não estava preparada para passar.
Lembro de já ter reclamado por não receber flores.
Lembro de já ter me apaixonado rapidamente e também ter deixado de gostar rapidamente.
Lembro de quando a minha irmã se casou e de como me senti traída por isso.
Lembro de sempre tocar clarineta errado nas audições porque ficava muito nervosa. E várias vezes tive que recomeçar a música.
Lembro de a minha mãe ter visto eu beijando um garoto no sofá quando eu tinha 17 anos e de tê-lo mandado embora pra casa.
Lembro de já ter considerado ser freira.
Lembro de já ter me achado louca de um dia ter sequer pensando em ser freira.
Eu lembro de muitas coisas quando elas me importam. Mas também já esqueci de muitas memórias porque não suportaria guardá-las comigo. E elas precisavam dar espaço para outras menos doloridas.
Lembro do momento que recebi a notícia da morte da minha avó. Mas esse foi um dia que não pretendo esquecer.
domingo, julho 30, 2006
Carlinhos
Não sei quando aconteceu e nem como, mas a situação se provara pra mim: os gatos, de fato, tinham sete vidas.
Tudo começou quando o Carlinhos, gato preto e velho da vizinha, foi tentar caçar um passarinho logo de manhã. Eu estava doente e pude ver tudo pela janela. Ele subiu cuidadosamente o ipê até chegar a um galho bem comprido e estreito. De lá, deu um salto enorme e mergulhou de cara no chão. De passarinho, nada vira.
Pude identificar todas as partes nojentas que a gente não quer ver num defunto. Aquela melequeira só. E fui tocar a campainha na casa da Nise pra dar a notícia:
- Nise, desculpa incomodar. Mas o Carlinhos tá ali, ó. Estirado no chão. Mortinho.
- O quê??? – desabou a chorar e foi de encontro ao bichano. Chegou lá e nada vira.
- Que piada mais sem graça, menina!
- Como assim? – e para o meu grande choque, ele não estava mais lá. – eu juro, juro. Vi o bicho caindo da árvore e com as tripas todas arregaçadas e...
De repente chega o Carlinhos se metendo por entre as pernas da Nise.
- Olha menina, nunca mais faça isso, viu?!? Nunca mais, tá me entendendo?! – e saiu resmungando e beijando indecentemente o gato.
Fiquei estonteada. Será que estava delirando por causa da febre? Fui e medi minha temperatura: não. A febre baixara e passei o resto da tarde tentando me explicar o que acontecera.
Os dias continuaram e esqueci aos poucos a cena do Carlinhos morto.
Até que numa outra manhã, saindo para trabalhar, vi novamente a situação: o Carlinhos subindo no ipê, dirigindo-se ao mesmo galho e mergulhando novamente no cimento.
Preferi não olhar e fui embora intrigada.
Minha vida continuou na monotonia usual, mas contei mais quatro vezes nas quais aquilo se repetia.
Visitei piscólogo, macumbeiro, xamã, médium, pastor e... ninguém conseguiu me explicar o que eu tinha visto. Alguns nem me davam ouvidos. Outros transcendiam demais e eu ficava mais confusa.
Foi quando, num domingo, eu achara a explicação.
O Carlinhos fez suas travessuras novamente e eu acompanhei de forma maníaca todos os seus passos. Desde preparar-se para subir naquela árvore até o galho em que estava pendurado. Torcia sozinha: "Ca-ai. Ca-ai! Ca-ai!!!!"... E aconteceu!!!!! Comemorei de alegria, soltei rojões dentro de mim...
Corri escadas abaixo, abri a porta da frente e vi: o Carlinhos, de fato, estava estrupiado em frente à minha casa. Não podia seeer!
Peguei meu caderninho e anotei: “Sétima –> 7º. Desta ele não escapa”.
Tudo começou quando o Carlinhos, gato preto e velho da vizinha, foi tentar caçar um passarinho logo de manhã. Eu estava doente e pude ver tudo pela janela. Ele subiu cuidadosamente o ipê até chegar a um galho bem comprido e estreito. De lá, deu um salto enorme e mergulhou de cara no chão. De passarinho, nada vira.
Pude identificar todas as partes nojentas que a gente não quer ver num defunto. Aquela melequeira só. E fui tocar a campainha na casa da Nise pra dar a notícia:
- Nise, desculpa incomodar. Mas o Carlinhos tá ali, ó. Estirado no chão. Mortinho.
- O quê??? – desabou a chorar e foi de encontro ao bichano. Chegou lá e nada vira.
- Que piada mais sem graça, menina!
- Como assim? – e para o meu grande choque, ele não estava mais lá. – eu juro, juro. Vi o bicho caindo da árvore e com as tripas todas arregaçadas e...
De repente chega o Carlinhos se metendo por entre as pernas da Nise.
- Olha menina, nunca mais faça isso, viu?!? Nunca mais, tá me entendendo?! – e saiu resmungando e beijando indecentemente o gato.
Fiquei estonteada. Será que estava delirando por causa da febre? Fui e medi minha temperatura: não. A febre baixara e passei o resto da tarde tentando me explicar o que acontecera.
Os dias continuaram e esqueci aos poucos a cena do Carlinhos morto.
Até que numa outra manhã, saindo para trabalhar, vi novamente a situação: o Carlinhos subindo no ipê, dirigindo-se ao mesmo galho e mergulhando novamente no cimento.
Preferi não olhar e fui embora intrigada.
Minha vida continuou na monotonia usual, mas contei mais quatro vezes nas quais aquilo se repetia.
Visitei piscólogo, macumbeiro, xamã, médium, pastor e... ninguém conseguiu me explicar o que eu tinha visto. Alguns nem me davam ouvidos. Outros transcendiam demais e eu ficava mais confusa.
Foi quando, num domingo, eu achara a explicação.
O Carlinhos fez suas travessuras novamente e eu acompanhei de forma maníaca todos os seus passos. Desde preparar-se para subir naquela árvore até o galho em que estava pendurado. Torcia sozinha: "Ca-ai. Ca-ai! Ca-ai!!!!"... E aconteceu!!!!! Comemorei de alegria, soltei rojões dentro de mim...
Corri escadas abaixo, abri a porta da frente e vi: o Carlinhos, de fato, estava estrupiado em frente à minha casa. Não podia seeer!
Peguei meu caderninho e anotei: “Sétima –> 7º. Desta ele não escapa”.
segunda-feira, abril 10, 2006
sábado, março 18, 2006
Meu vazio, meu minimalismo
O minimalismo surgiu nos Estados Unidos na década de 50 nas artes visuais com algumas poucas formas geométricas e cores simples. O caráter impessoal do gênero pode ser analisado como resposta vazia ao emotivo expressionismo abstrato.
O que tanto me comove na arte minimalista é este exato desprendimento conceitual permitido no mundo Pós-Moderno. É poder apenas viver da estética e não ter justificativas para isso.
Ele vem de uma tremenda necessidade dado em vista que já não aprovamos a simplicidade diária.
O minimalismo me preenche do vazio que já não encontro onde habito. Porque esse vazio é tido como depressão; e a informação sufoca e o racional transborda.
É o meu escape emocional para tanta tradução complexa dos arredores.
obs- texto que vai pra minha exibição fotográfica, no Senac Águas de S. Pedro.
O que tanto me comove na arte minimalista é este exato desprendimento conceitual permitido no mundo Pós-Moderno. É poder apenas viver da estética e não ter justificativas para isso.
Ele vem de uma tremenda necessidade dado em vista que já não aprovamos a simplicidade diária.
O minimalismo me preenche do vazio que já não encontro onde habito. Porque esse vazio é tido como depressão; e a informação sufoca e o racional transborda.
É o meu escape emocional para tanta tradução complexa dos arredores.
obs- texto que vai pra minha exibição fotográfica, no Senac Águas de S. Pedro.
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